Da depressão à felicidade

Eu não tinha direitos, não tinha como escapar, uma família abençoada,

Da depressão à felicidade

Lembro-me de ser uma criança muito depressiva, Desde os meus quatro anos de idade. Tinha medo e era insegura por causa da violência que eu vi em casa, e fui abusada com 10 anos. O ódio e a raiva começaram a tomar controle de mim, tornei-me uma criança agressiva e ninguém entendia a razão de eu agir desse jeito.

Com 16 anos de idade fui violada, abusada e jogada como se eu fosse lixo. Desde esse momento, a minha vida tornou-se um inferno. Eu tornei-me muito rebelde e não queria saber de nada. Saí de casa para trabalhar e sem saber, acabei por ir parar a um bordel onde eu procurava um sitio para ficar.

Eu não tinha direitos nenhuns, vestia e comia o que me davam. Era controlada 24 horas, e era forçada a telefonar para minha mãe e dizer que eu estava bem. Estava a ser preparada para vender o meu corpo. Com o tempo, iria ser enviada para outro lugar aonde a prostituição seria praticada. Um dia, apareceu um cliente que conhecia a minha família, e com muito cuidado, pedi-lhe ajuda para fugir. Ao voltar para casa, a vergonha e a humilhação era enorme. Os vizinhos chamavam-me de prostituta e isso fez com que eu tivesse mais ódio e raiva de todos. Após encontrar um emprego, decidi recomeçar a minha vida em Lisboa.

Mais uma vez fui enganada, aceitei a proposta de cuidar dos filhos de uma casal, mas na verdade eu ia trabalhar para eles numa rede de prostituição. Eu não sabia o que fazer e não conhecia ninguém. Na primeira semana, mostravam-me filmes pornógrafos, disseram-me como eu tinha que fazer e que tinha que mentir sobre a minha idade.

Em nenhum momento dei-lhes a entender que não queria fazer aquilo, pois estavam sempre armados e eu tinha muito medo. À noite, eu só chorava e pedia socorro a Deus. Quando estava prestes a me mudar para um bordel profissional, aonde eu seria treinada para ser vendida para Espanha. O meu coração queria sair pela boca, a minha vontade era de gritar por socorro. Nessa mesma noite, disseram-me que não era justo eu ir sem primeiro ensaiar o que tinha que fazer. Felizmente consegui escapar. Aquele dia parecia um pesadelo, tinha muito medo e as pernas tremiam. O casal ficou com as minhas roupas e os meus documentos, e apenas deram-me uma sacola com roupinhas para usar para me prostituir.

No meio do caminho, o homem parou o carro e demonstrou interesse em ter relações sexuais comigo, após eu recusar, ele puxou a arma e apontou-a a minha cabeça, ele disse que se eu não aceitasse, ele me matava. Achei que iria morrer, mas a esposa acalmou-o e ele guardou a arma.

Quando cheguei ao local, era um grande negócio. Por baixo era um restaurante fino, onde ninguém imaginava o que se passava no andar de cima. Haviam muitos seguranças, mulheres e muitos clientes, eu não tinha como escapar.

A dona do negócio viu que eu estava com medo, ela pediu que eu falasse a verdade. Quando eu lhe disse que tinha apenas 17 anos, ela ficou frustrada. Ao mesmo tempo que chorava expliquei os planos que o casal tinha para mim. Ela então levou-me para a casa de uma prima dela, longe da área e essa prima me socorreu. Decidi vir para Londres com 21 anos. Conheci um homem com quem eu me apaixonei prometeu casar comigo e fazer-me feliz.

Eu quis formar uma família, queria ter o que nunca tive; um lar com união, amor e paz. Após quatro meses de relação com este homem, fui usada e abusada por ele. Quando menos esperei, fiquei grávida e mesmo grávida o pai da criança apagava o cigarro na minha testa e cuspia na minha cara. Ele não me deixava comer e muitas vezes tentou pontapear a minha barriga, ele dizia que era para o bebe sair pela minha boca.

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Quando eu estava com quatro meses de gravidez, ele foi preso. Perdi toda a minha autoestima e tornei-me muito emotiva. Passava os dias a chorar e não tinha paciência para ninguém. Também viciei-me em álcool, tabaco e cheguei a me envolver em drogas, tive duas overdoses onde pensei que iria morrer. Eu não conseguia perdoar a mim mesma, nem aqueles que tanto me magoaram.

Tentei suicidar-me três vezes e a depressão estava a destruir-me, ao ponto de começar a esquecer as coisas. Não tinha saída para mim, senti-me perdida. Foi aí que um amigo convidou-me para ir ao Centro de Ajuda. Lá encontrei pessoas que ajudaram-me a ser livre de toda a dor e cicatrizes que eu carregava comigo ao longo de todos esses anos.

Aprendi que mesmo depois do abuso que passei poderia ser feliz. Hoje perdoei a mim mesma e a todos que me magoaram. Já não sou viciada. Tenho paz, alegria, amor, estou casada e tenho uma família abençoada. Hoje sou verdadeiramente feliz e cheia de vontade para viver.

Leah De Abreu

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